Vídeo de cães soltos na rua por clínica veterinária no Paraná leva polícia a descobrir série de irregularidades no local, contratado por prefeitura; veja
10/06/2026
(Foto: Reprodução) Vídeo de cães soltos na rua por clínica veterinária leva polícia a descobrir irregularidad
O vídeo que mostra a equipe de uma clínica veterinária soltando dois cães em uma rua de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, levou a Polícia Civil do Paraná (PC-PR) a descobrir uma série de irregularidades no estabelecimento - que é contratado pela prefeitura municipal para realizar serviços como atendimento veterinário e castração em animais de rua.
A cena aconteceu em março e viralizou nas redes sociais. As imagens mostram que, após pararem em uma via não pavimentada, funcionários da Clinicão descem da ambulância veterinária, soltam os cachorros, tiram fotos deles na rua e na sequência vão embora. Veja no vídeo acima.
Após a circulação do vídeo, a clínica passou a ser investigada pela Polícia Civil. O inquérito foi finalizado nesta terça-feira (9) pelo delegado Derick Moura Jorge, que indiciou a Clinicão e três médicos veterinários do estabelecimento pelo crime de maus-tratos aos animais.
Os nomes dos veterinários não foram divulgados porque o processo corre em sigilo de Justiça. O g1 tenta contato com a defesa deles.
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Segundo o delegado, os dois cães que aparecem no vídeo foram recolhidos para castração, mas "abandonados de forma desamparada" em uma região erma da Vila Mezzomo, à margem de uma linha férrea ativa, a mais de 7 quilômetros da comunidade onde os animais viviam e eram monitorados.
"Ao serem resgatados, os cães apresentavam desidratação severa e estavam com as incisões cirúrgicas abertas e com os pontos rompidos, sem qualquer proteção ou suporte analgésico", aponta Jorge.
Ao g1, a Clinicão disse que "os procedimentos adotados observaram os protocolos operacionais e técnicos aplicáveis ao caso, incluindo as diretrizes de Captura, Esterilização e Devolução (CED), metodologia amplamente utilizada em programas de manejo populacional de animais".
"A Clinicão também manifesta sua confiança na atuação ética, técnica e responsável dos médicos-veterinários e demais profissionais envolvidos, que sempre exerceram suas funções pautados pelos princípios da medicina veterinária e do bem-estar animal. Todos os documentos, registros e informações pertinentes serão apresentados aos órgãos competentes, oportunidade em que a empresa exercerá plenamente seu direito de defesa", disse a clínica.
Na época em que o caso veio à tona, a prefeitura de Ponta Grossa disse que o procedimento seguiu a orientação de uma lei municipal, que determina que os cães de rua devem ser soltos no local em que foram coletados. O g1 voltou a questionar a prefeitura nesta quarta-feira (10), e aguarda resposta.
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Outras irregularidades
O delegado Derick Moura Jorge, no decorrer das investigações vistorias técnicas e laudos periciais constataram que o estabelecimento operava "em condições de insalubridade e descumprimento de protocolos sanitários".
Veja o que o delegado afirma:
animais de grande porte eram mantidos em baias pequenas que os impediam de ficar em pé ou girar;
um gato diagnosticado com esporotricose, uma micose contagiosa, era mantido em uma enfermaria comum, sem qualquer barreira ou sinalização;
kits cirúrgicos eram guardados sem controle de esterilização;
na área externa, cadáveres de animais estavam condicionados de forma totalmente irregular em freezers ao lado de materiais perfurocortantes destampados, próximos a cadelas lactantes com ninhadas recém-nascidas, onde um filhote já se encontrava morto e sem assistência;
foi constatado o uso de instrumentos inadequados em procedimentos cirúrgicos, que resultou em danos físicos a um animal.
"Ficou demonstrado que os crimes de maus-tratos derivaram de decisões gerenciais e visavam o lucro financeiro direto da empresa em detrimento do bem-estar animal, esquivando-se dos custos operacionais de recuperação, medicação e alimentação pós-cirúrgica", complementa ele.
O delegado ainda conta que, à polícia, a defesa dos investigados alegou que o descarte se tratava do cumprimento do protocolo internacional CED (Captura, Esterilização e Devolução).
Contudo, a Polícia Civil refutou completamente a tese, considerando que o protocolo exige de forma cumulativa a plena recuperação do animal em ambiente asséptico, cicatrização completa, microchipagem e devolução rigorosa ao exato local de origem.
"Soltar animais debilitados com feridas abertas em quadrante geográfico totalmente diverso e perigoso desnatura o instituto e configura ato inequívoco de abandono e descarte de resíduos vivos", diz o delegado.
Situação aconteceu em Ponta Grossa (PR)
Reprodução
Maus-tratos aos animais
O crime de maus-tratos contra animais está previsto no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998). Ele é categorizado como praticar ato de abuso, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos.
A pena é de detenção de 3 meses a 1 ano, além de multa. A pena pode ser aumentada caso o animal morra em decorrência dos maus-tratos ou em outros casos.
Um deles é o aplicado no indiciamento dos veterinários e da Clinicão: quando se tratar de cão ou gato, a pena será de dois a cinco anos de prisão, além de multa e proibição da guarda.
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