'Paraná tende a receber ainda mais venezuelanos', diz pesquisador após ataques dos EUA na Venezuela
04/01/2026
(Foto: Reprodução) Venezuelanos que vivem no Paraná falam da situação no país
Os ataques dos Estados Unidos à Venezuela podem provocar um novo aumento da migração venezuelana para o Paraná, segundo o sociólogo Márcio de Oliveira, coordenador do Projeto Atlas da Migração Internacional da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Segundo o sociólogo, a instabilidade no país vizinho tende a intensificar a chegada de venezuelanos ao estado, onde a comunidade migrante é expressiva.
O pesquisador aponta que o Paraná ocupa atualmente a segunda posição entre os estados que mais recebem migração venezuelana, especialmente pelas baixas taxas de desemprego e demanda por mão de obra.
“O Paraná é o segundo – por vezes o primeiro, dependendo do mês – estado mais atrativo para a migração venezuelana. Então, a presença venezuelana no Paraná é muito forte, e há muita preocupação da comunidade com o que está acontecendo na Venezuela”, afirma.
Os ataques ocorreram na madrugada deste sábado (3) e foram confirmados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por meio de uma rede social. Segundo a agência Associated Press, ao menos sete explosões foram ouvidas em Caracas em um intervalo de cerca de 30 minutos. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, foi capturado e levado para Nova York.
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Para Oliveira, o cenário de incerteza política e tensão militar deve contribuir para novos deslocamentos. “O estado do Paraná tende a continuar, com essa situação de instabilidade, a receber ainda mais venezuelanos, nesse momento de transição política para o qual ainda não há nenhuma certeza”, diz.
Segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais, mais de 87 mil venezuelanos residem no Paraná. Em todo o Brasil, esse número ultrapassa 575 mil.
Curitiba se destaca como principal destino no estado. A capital paranaense é a cidade brasileira que mais recebeu venezuelanos pelo Programa Acolhida, do Governo Federal. Entre abril de 2018 e novembro de 2025, 8.930 migrantes passaram a morar em Curitiba por meio da operação.
Segundo o pesquisador, esse protagonismo também está ligado à estrutura construída ao longo das últimas duas décadas.
“A cidade de Curitiba, de 20 anos pra cá, se especializou no acolhimento. Há uma rede de proteção e acolhimento muito importante, que envolve organizações da sociedade civil, organizações religiosas, organizações institucionais da Prefeitura, do Estado e as universidades também”, explica.
Esse ambiente, segundo ele, torna a presença venezuelana cada vez mais visível no cotidiano da cidade. “Qualquer cidadão de Curitiba ou da Região Metropolitana, que vai ao supermercado, à padaria ou a um posto de gasolina, pode reconhecer que a língua espanhola é bastante falada”, afirma.
Imagem do incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, após uma série de explosões em Caracas em 3 de janeiro de 2026
Luis Jaimes/AFP
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Ataques podem ter impacto sobre fluxo migratório
Márcio de Oliveira aponta que os desdobramentos após a ofensiva estadunidense podem provocar movimentos migratórios em ambos os sentidos: tanto de novas famílias venezuelanas chegando, quanto de retorno de migrantes que já estejam morando no Brasil.
"Pode ter uma parcela de venezuelanos que estejam no Paraná que deseje retornar, mas uma parcela seguramente não vai retornar, porque já fez sua história na cidade de Curitiba, Região Metropolitana e interior. [...] Pode haver um retorno, mas esse retorno vai esperar, primeiro, uma definição política maior, e isso leva um pouco de tempo, não é do dia pra noite."
O pesquisador, no entanto, acredita que nos próximos meses, caso a indefinição política no país vizinho se mantenha, o Paraná pode ser o destino de boa parte dos venezuelanos que pretendem deixar o país de origem. "Devido às redes que já são organizadas no Brasil todo – e no Paraná, em especial – pode ser que, sem saber exatamente pra onde vai o país, algumas pessoas pensem em sair", afirma Oliveira.
Venezuelanos fizeram manifestação em Curitiba neste sábado (03).
Fábio Gomes/RPC TV
Venezuelanos organizaram manifestação em Curitiba
Na tarde deste sábado (3), dezenas de venezuelanos se reuniram em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, para uma manifestação. Utilizando bandeiras e camisetas nas cores do país, eles cantaram o hino da Venezuela.
Apesar da apreensão com a situação política, os manifestantes comemoraram a captura de Nicolás Maduro. "Gostaria de retornar, mas temos que esperar que tudo se acalme, que tudo volte à normalidade", disse a engenheira civil venezuelana Fabíola Ricardo, que trabalha em um frigorífico no Paraná e fez parte da manifestação. "Mas o mais importante é que Maduro caiu", conclui.
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Migrantes relatam preocupação
Venezuelanos que vivem no Brasil acompanham os desdobramentos com apreensão. Muitos relatam angústia ao seguir as notícias por redes sociais, transmissões ao vivo de jornalistas venezuelanos e contatos diretos com familiares que permanecem no país.
Caroline A., que vive no Brasil há cerca de dois anos, acompanha as informações por meio das redes sociais, com transmissões ao vivo de jornalistas venezuelanos, e pela família.
"A família da minha mãe está em Caracas, bem perto de onde Maduro foi deposto. No momento, as garantias constitucionais estão suspensas, mas as pessoas estão tentando manter a calma. Há medo, sim, mas também depositamos nossas esperanças em Deus", detalha Caroline.
A professora Lívia Vargas González, de 48 anos, imigrante venezuelana que vive em Foz do Iguaçu, acompanha com apreensão os desdobramentos do ataque. Mesmo morando no Brasil há quase uma década, ela mantém contato diário com a família que vive em Caracas.
Lívia relata que soube do ataque ainda de madrugada, por mensagens enviadas em grupos de família.
“Eu acordei hoje muito cedo e assim que eu acordei vi um monte de mensagens dos grupos da família, do meu pai. No começo eu não entendido o que estava rolando, eu pensei que era brincadeira”, diz.
Ela conseguiu falar com o pai por telefone por volta das seis da manhã. Ele mora perto do centro de Caracas e acordou com o impacto das explosões.
“Meu pai conta que ele sentiu um impacto assim como se fossem foguetes, mas muito forte. Ele fala que ele nunca tinha escutado assim e que ele sentiu a vibração, mesmo estando no centro", detalha
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